Andei, e andei somente. Não havia rumo, não havia norte, havia apenas a vontade de me afastar de ti, de nós. A garrafa de conhaque caiu no chão e quebrou-se em pequeninos pedaços, enquanto sentia meus pés descalços pisarem o vidro. Na falta de curativos, ou mesmo vontade de parar pra pensar nisso, tirei a camisa e amarrei a um dos pés, que sangrava muito. Continuei andando, meus novos sapatos decidiriam para onde, e até onde iria. Comecei a pensar na vida. Comecei a pensar na morte. Nenhuma delas me aprazia. Decidi então só continuar caminhando e esquecer os pensamentos. Lembrei que havia roubado um cigarro seu antes de sair desesperado pela vontade de nunca mais te ver, de não te dar mais o prazer de me vilipendiar, de me distratar da maneira que fazes.
Procurei por fogo, não achei. Deveria também ter roubado teu isqueiro. Encontrei um parque e meu pé já empapado em sangue me pediu para parar. Estava quase bêbado, mas sóbrio o suficiente para saber que não poderia desamarrar meu pé (tentara fazer isso quando cortei meu dedo no processador de alimentos e acabou por sangrar mais).
De repente o frio começou a me tomar, e eu decidi andar mais alguns quarteirões até encontrar um lugar melhor, e encontrei um bar. Procurei por trocados e decidi quedar-me por lá mesmo. E foi então que tudo escureceu e me vejo em um hospital. Bog deve saber porque diabos acordei em um hospital, contudo onde acordara ou acordaria não fazia diferença para mim. Meu braço doía, e a glicose entrava como por rasgar as veias, o braço estava roxo, ou verde, aquelas cores de contusões.
Meu pé havia parado de sangrar, mas meu coração ainda sangrava por dentro. Todo meu corpo doía, da cabeça, graças a ressaca, aos pés, graças ao corte. Pensei então se você se importaria, e esperei que você me procurasse, ao menos para saber se estava bem, mas você não veio. Por um segundo quis que você estivesse em meu lugar.
Dezenas de milhares de leitos de hospital e nenhum deles te pertencia. Estava deitado com as pernas pra cima, quase sem conseguir me mexer. A sensação era tanta dor e agonia, que no final eu apenas sorri. Sorri porque me coveio, sorri porque me libertei. O que há de melhor para alguém sem esperança que um leito de hospital?
Tive alta e sai a caminhar pela rua. Precisava de um banho, a mistura de suor e exalação de álcool tornara-se insuportável. Procurei meu alce no bolso, tirei-o e comecei a brincar com ele. A caminhada que começou desnorteada agora queria me levar de volta pra casa, pra minha cama. Infelizmente tenho o desprazer de morar perto de ti e de ter de passar por onde moras para chegar ao meu destino. Com o decorrer do caminho te notei. E lá estavas, sentada no banco, embaixo do jasmineiro fumando teu cigarro.
Atravessei a rua e encarei o chão para não precisar te olhar. Você gritou meu nome, fingi não ouvir e continuei caminhando. Gritou novamente, e novamente, e novamente, até que parei de caminhar, te encarei e simplesmente acenei negativamente enquanto desviava o olhar. Você não mais brincaria comigo. Você correu e tentou me abraçar, ao que não correspondi, olhou nos meus olhos, e falou que me amava, pediu desculpas, sabe, essas coisas que fazemos por fazer. Desviei novamente o olhar, encarei o chão, soltei um sorriso de canto de boca e falei: "Eu também te amo, só não te quero mais."
Lagrimejaras, creio que nunca havia esperado que um dia eu te me negasse. E inverteu-se então o feitio, o que fui eu hoje és tu, o desprezo que sentia por ti acabava com todo e qualquer resquício do meu amor por ti. "E assim, quando mais tarde me procures, quem sabe a morte? Angústia de quem vive. Quem sabe a solidão? Fim de quem ama. Eu possa dizer de um amor - que tive."